Ensaio Sobre um Amor Lúcido

BERNARDO FILIPE
Abril 6, 2026

Há sempre alguma razão no amor. Mas também há sempre alguma loucura na razão.

UM AMOR LÚCIDO

Este ensaio é sobre uma enorme paixão que senti e sinto e sempre irei sentir por uma mulher em específico que apareceu na minha vida e se aproximou de mim num momento importante da minha vida. Um momento em que estava em recuperação e onde a minha escrita amadureceu e se expandiu. Chama-se Beatriz.

Decidi escrever este ensaio porque a nossa história ficou péssima. Ela desapareceu de uma forma muito estranha e eu não consigo nunca reencontrar-me com ela. Parece estar destinado ficarmos juntos, lado a lado, e no entanto não estamos juntos. É uma gralha do destino ela não estar aqui ao meu lado enquanto escrevo este ensaio, e portanto neste ensaio vou mostrar que tem que aqui estar.

Irei dar uma breve história de como me apaixonei, o que me atraiu e repeliu nela, como cresci com o que se passou, a incerteza que senti no meio da complexidade à minha volta. Irei também descrever o que senti e analisar como eu e ela nos encaixamos no meio do destino.

Percebendo como cheguei até aqui

Voltei para Lisboa no final de 2022, em Setembro, depois de passar por uma psicose (que não surgiu devido a nenhum consumo de droga), vender ao meu irmão a parte da minha casa que herdara da nossa mãe, e de perder metade da minha riqueza (devido à crise gerada pela guerra na Ucrânia e, obviamente, pelo meu estado mental que tornou impossível focar-me no meu portefólio diversificado de ações). Voltei para um quarto numa casa partilhada, onde outras pessoas coabitavam nos seus quartos arrendados. E foi aí, umas semanas depois de lá chegar, que a conheci.

No início nem quis saber muito dela, pois estava ainda a curar-me e, apesar de termos uma relação cordial (olá, bom dia, tudo bem?), estávamos em períodos de vida diferentes. Eu queria recuperar toda a riqueza que perdera e ela estava a estudar na universidade. Eu estava também matriculado numa outra universidade, mas tive o azar de fazer uma punção lombar, que um médico achou razoável fazer devido à minha psicose. O curso onde estava não me interessou muito, mas com essa punção lombar que me fizeram, fiquei três meses de cama com dores de cabeça insuportáveis. Apenas me levantava para comer, pois apenas deitado passavam as dores de cabeça.

Deve ter sido nessa altura, no corredor da casa, que eu e ela olhámos um para o outro durante uns segundos em silêncio, enquanto outros colegas de casa por lá estavam a conversar. Senti algo aí, mas não quis dar importância. Havia biliões de razões para não querer estar com ela. A nossa diferença de idade, o facto de eu estar focado em recuperar a minha riqueza, o facto de ela ser prima de um antigo colega de casa de quem eu não era muito chegado e até nem gostava muito e, claro, o facto de vivermos na mesma casa e eu não querer criar mau-ambiente. Como não passamos os dois juntos muito tempo nas áreas em comum da casa, também não nos conseguimos conhecer bem um ao outro.

Nunca nos aproximámos muito, mas ia sabendo coisas sobre ela quando falávamos um com o outro. Que era vegetariana, por exemplo. Que estudava antropologia. Que trabalhava num bar ou restaurante para além de estudar.

Ela não dava muita confiança, mas algumas vezes tentei aproximar-me dela. Uma vez na cozinha, enquanto ela cozinhava, sentei-me lá a falar um pouco com ela, mas ela assim que acabou de fazer a comida, pegou no prato e fugiu para o seu quarto.

Ela tem um sorriso lindíssimo.

Passado um ano, recuperei toda a minha riqueza, e corrigi na totalidade a versão final do meu livro filosófico.

Nessa altura, ela já tinha conhecido o meu irmão, que volta e meia aparecia lá em casa e ficava lá umas noites a dormir, e pareceu-me que se davam bem. Foi por aí também que comecei a gostar mais dela e a pensar mais nela. Às vezes ela chegava tarde a casa e mandava-me mensagem para lhe abrir a porta porque se tinha esquecido das chaves. Abria-lhe a porta e ela olhava para mim sorridente e feliz. Olá, tudo bem, etc. e entrava em casa e ia para o seu quarto. Pouco a pouco, foi ficando para sempre na minha cabeça (e é por isso que estás a ler este texto).

No entanto, foi nessa altura que um novo colega de casa apareceu. E esse colega de casa passava horas e horas a falar com ela todos as semanas na cozinha lá de casa. Portanto, assumi que ela simplesmente não gostava de mim ou algo. Até porque não tenho, nem nunca tive, paciência para competir, num grupo social, por atenção de uma mulher, e mulheres que tentam seduzir alguém em específico dando atenção a quem não gostam para causar ciúme nunca se safaram comigo, especialmente quando é óbvio que gostam é de mim e não do parvo com quem falam. E ele era bem parvo.

Por vezes, gostava de beber umas cervejas na marquise, sozinho, enquanto ouvia música nos meus headphones e fumava uns cigarros, até bem tarde. Já nem sei se nesse ano de 2023 ela por lá apareceu nessas minhas sessões de cerveja com tabaco, até porque ela também vinha tarde do trabalho. Mas é possível que sim, talvez para fumar o seu cigarro também antes de ir dormir.

No início de 2024, eu, o meu irmão e mais alguns colegas de casa, fomos jantar fora juntos. A voltar para casa, achei estranho um comportamento dela, que agora em retrospectiva, me parece ter sido uma forma nervosa dela tentar ir dar um passeio sozinha comigo, sem me querer convidar explicitamente. Enquanto eu acabava o meu cigarro, ela esperou por mim, e os outros colegas de casa entraram no prédio. Eu não percebi a dica dela e lá foi ela passear sozinha. Mais tarde, em Abril, fiz uma pequena fortuna com um investimento que fiz. Se calhar ouviu a conversa que tive com o meu irmão e com os outros colegas de casa. Não sei. Mas pouco depois, quase imediatamente, ela seduziu-me de forma bem explícita e eu fiquei pateta sem saber o que fazer. Até parecia que quando uma coisa corre bem, tudo corre bem. Havia muita confusão na minha cabeça. Confusão de todos os lados. Acabei por nem fazer lucro nessa pequena fortuna que “fiz” e, com o passar do tempo, fui-me apercebendo que as pessoas à minha volta também estavam muito confusas, incluindo o meu irmão e os meus amigos.

Em Julho desse ano, tivemos uma ou duas conversas e interacções engraçadas na marquise numa das minhas sessões de álcool e tabaco, e eu ia ficando cada vez mais à vontade com ela. Fiquei a saber que o meu irmão tinha convidado a Beatriz a passar uns dias lá na sua casa nos Açores, ou seja, a casa onde cresci e que vendera quase dois anos antes, mas onde eu ainda passava férias. Ela foi sozinha para lá uns dias, mas numa dessas conversas que tivemos, ao despedir-se de mim para o seu quarto, disse-me que pensava que eu também iria lá estar, na casa do meu irmão… Algo que na altura nem percebi bem, pois ela nem me tinha dito pessoalmente que para lá iria. Claro que houve uma falha de comunicação, pois o meu irmão de certeza lhe disse que eu lá estaria nos dias em que ela foi. Na verdade, eu só tinha marcado os dias na casa do meu irmão para Agosto (dias que tinham que ser bem marcados, pois ele fazia Alojamento Local lá na sua casa e aquilo estava sempre cheio), não em Julho. (É de admirar que eu tenha ficado furioso com o meu irmão, meses depois, no meu mais recente livro filosófico? Mas já lá chegamos.) Numa outra interacção, ou talvez na mesma, pois já se passou algum tempo e eu não me consigo recordar exactamente das datas, ela disse-me que ia estudar para fora em Setembro. E portanto tirei logo da cabeça a ideia de me aproximar a sério dela. Podia ter sido diferente. Podia ter ido com ela para Itália. Eu tinha imenso dinheiro nessa altura. Mas fui estúpido e não quis pensar muito mais no assunto, até porque não tinha havido nenhum sinal claro de que ela me adorava e o nosso número de interacções foi curto até então. Parecia que os nossos timings não batiam certo, apesar de vivermos na mesma casa. E não, nem um beijo tínhamos dado um no outro.

Em Setembro, quis me despedir dela, antes de ir estudar para fora, e dei-lhe um abraço. Talvez aí tenha sido o golpe final. No Natal, falei sobre ela com a minha família e foi então que me finalmente surgiu a brilhante ideia: “Quero que ela seja a minha namorada.” Enviei-lhe mensagem de boas festas e de feliz ano-novo. E rezei que ela voltasse lá para casa depois do seus estudos em Itália, até porque ela tinha deixado muitas das suas coisas lá na nossa casa arrendada de Lisboa.

Em Janeiro de 2025 ela voltou de Itália e passou lá na nossa casa arrendada em Lisboa para ir buscar umas coisas que por lá tinha deixado. Abri-lhe a porta e estava felicíssima de me ver a mim, e eu felicíssimo de vê-la a ela. Mas afastou-se um pouco enquanto me aproximava e, tendo em conta que a sua mãe a esperava na rua, assumi que estava com pressa e não persisti. Foi um momento rápido e ambíguo. Eu queria saber como tinha corrido a sua experiência em Itália, talvez tudo de uma só vez. Pode ter sido nervosismo dela, não sei, mas dei por mim, e eu já estava sozinho no corredor e então deixei-a pegar nas suas coisas em paz. Assumi sempre que ela voltaria para lá, para o seu antigo quarto e, como me disse que ainda tinha exames para fazer lá em Itália, assumi que seria dentro de um mês ou dois.

Avançando para Março desse ano. Já estou três meses sem fumar tabaco. A falar com um colega de casa que é amigo do primo dela, apercebo-me que afinal a Beatriz não voltará para a tal casa arrendada onde continuo a viver. Contacto-a imediatamente por mensagem e combino logo um almoço com ela num bom restaurante. Passo por uma semi-psicose outra vez, do nada. Surgem paranóias enormes na minha cabeça e também muita inspiração que fui cristalizando em papel, na expansão do meu livro.

Algumas mensagens para a frente e para trás, chegamos ao dia combinado para o nosso almoço. Claro que houve ambiguidade nas supostas razões do almoço. Era “apenas” para se despedir dos antigos colegas de casa, dizia ela. Se era para disfarçar o interesse, ou não, eu queria era estar com ela por isso não liguei. E o almoço correu na perfeição. Talvez ela pudesse me ter feito algumas perguntas a mim para nos conectarmos melhor. Achei estranho ela ter um carro aparentemente novo, tendo em conta que me parecia ter pouco dinheiro nos meses em que vivemos juntos. Como ela ainda tinha coisas lá em casa, voltámos para lá e ajudei-a a levar tudo para o seu carro. Penso que deveria tê-la beijado aí, mas ela não parava para a frente e para a trás, de um lado para o outro, a pegar nisto e naquilo, até que me fartei e comecei a levar algumas das suas coisas para o seu carro. E descemos depois os dois e levei tudo para o seu carro. Na despedida olhei-a nos olhos, mas tinha um emplastro chato ao nosso lado, e então decidi dar-lhe dois beijos em cada bochecha e um abraço. Até porque ela me disse que iria trabalhar na parte da tarde e ainda queria estudar um pouco.

Trocámos mais algumas mensagens, mas tentei não ser chato e não persistir demasiado. Queria marcar outro encontro, almoço, ou que que quer que seja, mas não estava a dar. Ela demorava tempo a responder-me, e às vezes nem respondia. Até que algumas semanas depois lhe enviei uma pequena mensagem a dizer que percebi que ela não estava interessada em mim, mas que eu gostava muito dela e que a achava especial.

Responde-me quase imediatamente, com uma mensagem impecavelmente bem-escrita. Sempre soube que ela era inteligente. Foi, no entanto, uma mensagem muito agressiva, na qual implicitamente me chama idiota por achá-la especial e onde até termina a sugerir que eu sou muito velho. E nem consegui responder. Bloqueou o meu número logo a seguir. Fiquei de rastos. E as pessoas com quem falei disseram-me todas para me afastar. O meu irmão a chamar-me de louco. E o meu amigo a chamá-la de mal-criada. E eu… com a certeza de que ela, apesar da escrita impecável, não estava a pensar bem.

Será que alguém lhe falou mal de mim? E por isso ela cortou comigo desta forma? Passaram biliões de ideias na minha cabeça para tentar fazer sentido da situação. E uma ou duas semanas depois envio-lhe mensagem por terceiros, uma amiga em comum. Pensei em ir ao trabalho da Beatriz falar com ela cara-a-cara, mas todos me disseram que seria mau fazê-lo. Apenas o meu pai achou que seria normal. Remoí a ideia na cabeça durante vários dias, mas num momento impulsivo, sentado num quiosque rafeiro, enviei-lhe uma mensagem mais bruta, da qual me arrependo.

Sou desbloqueado no mesmo dia por ela e recebo uma ameaça de um amigo dela. Tudo muito estranho. No dia seguinte saio de casa, e até árvores da avenida ao lado foram cortadas e mandadas ao chão. Aparece-me um gajo, com uns vinte e poucos anos, uns dias depois, a fazer cara de mau para mim, mas nem pia e depois vai-se embora. Continuo de rastos com a situação, mas faço o meu melhor para aceitar a sua rejeição e até poesia romântica começo a escrever.

Umas semanas depois, já nem sei se foi antes ou depois do apagão ibérico (toda a península Ibérica ficou sem electricidade), enquanto atravesso a passadeira, sou quase atropelado por… ela, a minha querida Beatriz. Uma dança do destino. Toda a gente diz-me continuamente para esquecê-la. Mas eu não consigo nunca, por mais ideias sobre temas diferentes que fique a analisar e a meter em papel na expansão do meu livro que fica cada vez maior.

Em Julho, finalmente decido ir ao trabalho dela para lhe pedir desculpa e tentar explicar-lhe o que sinto. Nunca tinha lá ido, por isso nem sabia bem o que esperar, mas planeei o que lhe iria dizer. Era suposto começar logo com um “Tens dois minutos? Quero falar contigo.” Mas assim que lá entrei e ela me viu, pareceu que viu um fantasma, voltou para trás e meteu-se atrás do balcão. Caminhei até ela e, percebendo que ela estava nervosa, sorri e perguntei-lhe se estava bem. Ela nem respondeu. Olhou para mim paralisada uns segundos e virou as costas, cabelo voltado para mim. Mais uns segundos disto, e eu já sem saber o que dizer, quando uma colega dela que estava ao lado, pergunta-lhe se ela estava bem. Ao que eu, por instinto, para a situação não ficar estranha no local de trabalho para ninguém, peço logo à tal colega um descafeinado (já era tarde e eu não bebo café a partir de certas horas). A Beatriz, olhando já para o lado da sua colega, e, portanto, mostrando parte da sua face, dá um suspiro de quem até achou piada ao meu pedido, mas sem dizer nada, volta-se para a entrada do bar e caminha meio apressada para dentro. Eu, sem querer armar confusão, bebi aquele descafeinado rápido e volto para dentro para tentar falar com ela outra vez. Pago e falo com a chefe de mesa. Pergunto-lhe se posso falar com a Beatriz, mas a chefe diz-me que “não será necessário”. Todos muito bem-educados aqui, mas eu insisto e pergunto “Ela não quer falar comigo?”, ao que a chefe me responde com um claro “Não.” Respondo com um OK, um obrigado, e um boa tarde, e vou-me embora. Penso para mim novamente, que não há volta a dar e ela não quer mesmo nada comigo. Mesmo assim, achei estranho o comportamento dela, até porque nas últimas mensagens que me enviou, ela estava extremamente confiante e aqui estava claramente nervosa. Mais tarde conto tanto ao meu melhor amigo e ao meu irmão o que se passou (sabendo já que o meu irmão irá fazer um alarido sobre o assunto, mas curioso na mesma para ouvir o que terá a dizer, já que supostamente, pensava eu ainda na altura, mas entretanto percebi que não, os homossexuais percebem tanto as mulheres). O meu melhor amigo ri-se com a situação como se fosse um miúdo e diz-me que mesmo que eu tivesse conseguido dizer à Beatriz o que eu queria dizer, também podia correr mal e que portanto a devia esquecer de vez. Já o meu irmão faz um escândalo, chama-me louco, e diz-me que ela ainda me põe em tribunal. O que eu acho perfeitamente ridículo, pois não fiz mal nenhum à mulher. Volto, portanto, de novo ao meu trabalho do costume: investimentos e escrita. Não quero voltar lá àquele bar outra vez depois de levar com uma tampa destas. Fico triste e chateado por não ter nem sequer dito o que tinha planeado dizer, mas ao menos sinto-me bem porque tentei.

Numa festa de anos com o meu primo, com a sua namorada que eu mal conhecia e com esse meu “melhor amigo” (que conheci através do meu primo, já agora), voltou à conversa essa minha situação com a Beatriz e sugeri que a mulher (com vinte e poucos anos) era provavelmente inexperiente e não sabia bem o que estava a fazer, ao que esse meu “melhor amigo”, com 28 anos, me responde como um porco coisas que nem quero aqui descrever. Em vez de lhe dar uma bofetada e ir-me embora continuei ali, explicando-lhe com calma que isso não é bem assim. Vivendo e aprendendo.

Passam uns meses. Escrevo o meu melhor poema romântico, ainda a pensar nela. Recordo-me de tudo novamente e até contemplo contractar algum detective privado para tentar saber se ela está bem e não está em apuros. Certos comentários que ouvi, e acima de tudo o seu comportamento, começam seriamente a preocupar-me. Acabo de escrever finalmente o meu livro em Outubro, umas horas depois do que vem a ser o maior crash de sempre no mercado de bitcoin num espaço de 24 horas. Por volta dessa altura, começo a sentir insónias, incapaz de dormir. E é então que decido enviar à Beatriz umas mensagens, desta vez com um número novo.

Em vez de me responder a mim, envia mensagem ao meu irmão. Peço ao meu irmão, obviamente, print screen das mensagens e vejo logo que ela não está bem. O texto das mensagens estava cheio de gralhas e abreviaturas. E eu sabia que ela escrevia extremamente bem. Explicava resumidamente ao meu irmão o que se tinha passado entre nós e disse-lhe que já tinha ido à polícia fazer queixa de mim e ele, novamente faz um drama, e responde-lhe que tanto ele como o meu pai estavam chocadíssimos com o meu comportamento. E eu penso. Das duas uma: ou não era ela a enviar-lhe mensagens, ou ela não estava bem. Ainda fico uns dias a pensar na situação, mas finalmente acabo por convencer o meu irmão, com algum esforço, pois ele nunca queria fazê-lo, e pedindo-lhe que o fizesse como um favor pessoal, que telefonasse à Beatriz para lhe ouvir e confirmar que ela estava bem. Ela envia-lhe uma mensagem por voz. Extremamente agressiva e cheia de ódio. A voz dela diferente, mas ainda reconhecível. A cadência totalmente diferente. Acima de tudo, lenta. Deu uma reinterpretação quase total de tudo o que aconteceu, mas a minha resposta formal ao que ela disse está no meu segundo livro filosófico, escrito este ano. Basicamente, a situação toda cheirava mal. Aquilo não era a Beatriz que eu conheci. E até o “xD” que ela enviou ao meu irmão, imediatamente a seguir a enviar uma mensagem de áudio tão agressiva, cheirava mal. Não me restaram muitas dúvidas: ela não estava bem. E até comecei a perceber: nem no meu irmão ela parecia confiar.

Passado isto tudo, finalmente decido ir conhecer em Barcelona um certo escritor. Apercebo-me de certas coisas de forma quase visceral e imediata. Volto para Lisboa. Vou outra vez ao bar onde ela trabalhava. Dizem-me que já não lá trabalha há dois meses e não sabem nada dela.

Compro um novo número de telemóvel. 100 mensagens depois, cá estamos nós. Nem sei se recebeu uma que seja. Nem antigos amigos em comum, nem o próprio primo dela, me conseguem dizer nada. Após 100 mensagens sem resposta, já lhe dei uma boa razão para ela me meter em tribunal e no entanto… ainda não lá estamos os dois.

Coisas boas e coisas más

Coisas boas e coisas más. Coisas que me atraíram e coisas que me repeliram, mas que culminaram neste ensaio. Ela é bonita, simpática, fala bem, tem um sorriso lindíssimo, e foi fria no início da nossa relação  (o que demonstra que não dá bola facilmente). Mas é vegetariana (e eu não sou: o que é que vamos comer os dois juntos?), eu não me dava muito bem com o primo dela, ela era um pouco desarrumada, e deu demasiada bola a um tótó.

Desenvolvendo o carácter

Desenvolvi o meu carácter com tudo isto, tentando perceber o comportamento dela assim que me tentei aproximar a sério dela, quer presencialmente, cara-a-cara, quer por textos, tentando perceber o bloqueio estranho e agressivo do meu contacto, tentando perceber o facto de todos à minha volta acharem o comportamento estranho dela normalíssimo, quando me estava realmente a preocupar com ela, e até na minha escrita houve um enorme efeito. Quando realmente gostas de alguém, preocupas-te muito com essa pessoa e nunca a esqueces, por mais que te digam para fazê-lo.

O amor é complexo

Quando uma coisa bate certo, outra duas podem não bater certo. Estávamos mal sincronizados um com o outro no meio da confusão. Era necessário passarmos mais tempo juntos, um com o outro, para nos ligarmos e nos sincronizarmos melhor. E assim que ela saiu lá de casa, isso tornou-se muito difícil. Até porque já se percebeu que existem biliões de “razões” (i.e. motivações de outras pessoas que adoram o que escrevo) para a nossa relação não dar certo, e outras biliões de “razões” para a nossa relação dar certo.

Não tem assim tanta piada

Somos ambos seres humanos reais com sentimentos reais. Não somos desenhos animados.

Quando a acção não bate com a magia

Muitos sinais do destino, de que o amor está destinado, mas o desenrolar da história não bate certo. Quando a acção começa a ficar demasiado complexa, a magia dificilmente surge. Até posso enumerar alguns sinais que demonstram harmonia neste destino. A desarrumação dela, quando vivíamos naquela casa, por exemplo, bate certo (eu também estava desarrumado, e aquela casa idem). É normal as famílias às vezes não se entenderem (já expliquei isso no meu último livro, e há até obras de arte que gosto onde isso é um tema principal). O cabelo longo dela bate certo. É estilo típico das nómadas ciganas de Portugal, e eu sempre adorei o mais famoso nómada de todos: Átila. O nómada que juntou todas as tribos europeias, entrou em Roma, falou com o papa e voltou para trás, quando podia ter sido ele a destruir Roma. Até música de artistas que sempre ouvi (sendo uma delas a Make Me Glow, cuja arte visual mostra já que este amor está escrito nas estrelas). No entanto… temos o facto de ela ir de férias para a minha casa de infância e o meu irmão agora nem falar com ela. E ela manda mensagem ao meu irmão, o amigo falso, quando eu lhe contacto. Teria sido uma surpresa para mim ela ter ido lá àquela casa sem me dizer nada? O ir lá pensado que eu iria aparecer lá também? Tal como eu também estava felicíssimo de saber que ela voltaria para a nossa casa de Lisboa, mas não voltou? O meu irmão confundiu tudo e todos. Lixou-me a mim e à minha Beatriz, pois olhando para trás é óbvio que gostávamos um do outro. Desde cometas, à minha escrita. Até num álbum chamado Converting Vegetarians. Uma enorme série de sinais, micro teorias que cabem todas na minha macro teoria, mas que mostram que a harmonia celestial é mais calma do que a daqui, da Terra.

Eu e Ela

No meio da aparente confusão deste amor há lógica, e o lógico é eu e ela ficarmos juntos. Até porque se ela se juntar a sério a mim, vai gostar tanto de mim, que nem lhe vai passar pela cabeça ser má para mim e todo o ressentimento que possa ter sentido irá desaparecer.